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meu corpo pelo espaço, que tinham que ultrapassar
a barreira de uma timidez e de uma auto-critica monstruosas.
A diversão na escola, pra meu desespero,
era ver a turma chamando meu nome e acompanhando em questão
de segundos o meu rosto virando fogo de vergonha.
A timidez ainda mantenho, e de vez em quando ainda
coro com coisa ou outra. Vejo-me como uma personagem de Nelson Rodrigues,
quando isso acontece. Só acredito nas pessoas que ainda
se ruborizam, brincava ele. Mas hoje, diferente de antes,
já consigo dar risada de mim mesma. Tive uma infância
cheia de fantasia, talvez como qualquer outra criança. Passava
horas com minha irmã Isa, criando personagens e fingindo
ser outras pessoas, e desde cedo compreendi a necessidade e a função
das diferentes personas, em mim e nos outros. Uma verdadeira obsessão!
A dissimulação, as segundas, terceiras e quartas intenções
no que se diz, os desejos escondidos, aquilo que está por
trás, oculto, por debaixo da superfície da aparência.
Isso quando não passava um tempão em frente ao espelho,
observando as mudanças que aconteciam nos músculos
do meu rosto quando decidia assistir-me chorar. Puro artifício
e canastrice. O exercício acabava quando o rosto já
estava bem inchado, os olhos deformados e a boca gorda.
Meu pai e minha mãe sempre fizeram de tudo
pra que eu e minha irmã tivéssemos a melhor educação
possível, e investiram em todos os desejos das filhas. Diferentemente
de hoje, acho que cresci bem longe da televisão, quase não
parávamos em casa, fazíamos aulas de tudo. Como diz
minha mãe, somos uma família disfuncional como qualquer
outra, e quando surgia algum impasse lá em casa, não
havia jeito, sempre foi 3 contra 1, as mulheres sempre acabavam
vencendo. Sendo filha de um dentista e uma pediatra, não
era raro presenciar, na mesa de jantar, o assunto voltar-se pra
doenças, anomalias e procedimentos cirúrgicos. Talvez
venha dai um pouco da minha hipocondria e a vontade de fazer algo
totalmente diferente desse mundo da saúde.
Quando entrei pra Escola de Arte Dramática,
tive certeza de que essa era minha paixão. Na época
cursava Jornalismo na ECA/USP, mas não tinha mais certeza
do que queria fazer da vida. Tinha uma tremenda curiosidade pelas
coisas, a escola pra mim nunca foi um suplicio, pelo contrario,
a matemática me interessava tanto quanto a filosofia, mas
percebi no meio da faculdade que a minha expressividade não
se traduzia necessariamente em palavra escrita. Escrever pra mim
é penoso e sofrido, escrevo muito mais devagar do que penso,
e o turbilhão de idéias dentro da cabeça é
muito mais interessante do que aquilo que, de fato, coloco no papel.
Nos quatro anos de EAD, encontrei pessoas que tinham a mesma paixão
que eu, e a mesma vontade camaleônica de expressar-me em muitas.
Tive grandes mestres, fiz grandes amigos e parceiros de cena, e
tenho muita saudade do descompromisso e do privilegio de se fazer
teatro somente pelo tesão e pela necessidade de se fazer.
Sem se preocupar com bilheteria, dinheiro, divulgação,
patrocínio. Essa visão pragmática da vida artística
é realmente uma coisa difícil de se entender. Acho
que ainda sou muito romântica em relação a tudo
isso.
Fiz 31 anos nesse ultimo 21 de julho e petrifiquei.
O que quero dizer é que de alguma maneira me assustei com
o caminho que escolhi pra mim.
Meus Deus, como o que crio é efêmero!!!!!
Eu sei o quão ridícula é essa constatação,
afinal isso é intrínseco a própria natureza
do teatro, mas o fato dele se perder no tempo, de estar preso ao
tempo/espaço, diferente das outras artes, que perduram, é
pra mim o fascínio, o abismo e a beleza dessa arte.
O que acontece nos ensaios, o processo criativo
em si, é mais interessante do que aquilo que acontece no
palco, na hora da performance . Talvez dai a minha identificação
e o meu fascínio pelo trabalho do Gerald Thomas, sempre work
in progress, a obra nunca pronta e acabada. Ele é pra mim
o artista mais interessante, o mais completo e o mais inconformado
que eu conheço. Um gênio no teatro, e nas tantas outras
áreas que domina, ele mistura, com sua inteligência
e estética únicas, cultura, fantasia e utopia. Eu
sei que tenho o privilegio de ser testemunha e parceira nesse seu
caótico processo criativo. Tenho trabalhado com ele intensamente
nesses últimos cinco anos e espero que a nossa relação
ainda de muitos, muitos frutos deliciosos. Uma mistura de paixão,
admiração e muito orgulho.
Um dia desses, procurando uma foto minha no meio
de tantas que guardo das montagens, tive saudade dos meus muitos
personagens, das pessoas com quem já trabalhei e das diferentes
historias que já vivi. E me deu vontade de reunir num website
um registro dessa minha trajetória, com algumas fotos, recortes
de jornal e algumas lembranças pessoais de cada processo
de criação. Tanta gente pra agradecer... Tenho vontade
de fazer ainda muita coisa, com muita gente interessante por ai,
tanto no teatro, como no cinema e na televisão.
Que venham muitos outros projetos pela frente e muita, muita inspiração!
Evoé!
São Paulo, 19 de agosto de 2005.
Fabiana Gugli
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